Ciranda da Palavra

pra começo de conversa…

proxima reunião do MPL junho 26, 2011

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Lutas Camponesas em Março março 23, 2011

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No que diz respeito às lutas camponesas, o mês de março é movimentado.

Há duas datas marcantes: o 8 e o 14 deste mês. A primeira, mais conhecida, é o dia internacional de luta das mulheres, que conta com ações no mundo inteiro, não apenas no campo. Todavia, para elas, há um significado especial, pois a luta contra o machismo no ambiente rural é uma das mais importantes formas de mobilização para mudar a situação da agricultura. Desde uma maior atenção à agroecologia e à soberania alimentar – que as mulheres mobilizam fortemente, devido ao contato maior com a horta das pequenas propriedades e a obrigação de cozinhar para a família – até a reversão do êxodo rural, que conta como primeiras protagonistas exatamente as jovens mulheres. Esta última demanda é significativa, pois existe por que não vivenciam espaços de participação nas decisões do futuro da propriedade familiar e, ao fixarem-se no meio urbano, encontram relativa facilidade para empregarem-se como empregadas domésticas ou trabalhadoras no ramo dos serviços.

O Movimento de Mulheres Camponesas (MMC. http://www.mmcbrasil.com.br/), traz fortemente esta discussão há décadas, além de pautar o machismo no interior dos próprios movimentos sociais, tabu que vem felizmente arrefecendo e encontrando espaços de discussão e ação que revertam tal contexto – ainda longe de totalmente transformado. Além disso, a Via Campesina (http://www.viacampesina.org/sp/) e os diversos movimentos que a compõem buscam incorporar o temário do feminismo nas lutas camponesas.

Uma ação marcante foi a ocupação de laboratório da empresa Aracruz no Rio Grande do Sul, há 5 anos atrás (http://tinyurl.com/6khs6uy) Assim como a ação contra a terra grilada pela Cutrale no interior de São Paulo, (novidades sobre o caso em http://www.mst.org.br/node/11178)  ocorrida ano passado, que consistiu em destruir pés de laranja plantados ilegalmente a ação contra a multinacional Aracruz causou polêmica na opinião pública. Não era de se esperar algo diferente, afinal sabemos que a mesma ladainha criminalizante será bombardeada pelos grandes veículos de comunicação.

Este ano, apesar do calendário truncado devido ao carnaval tardio, ofoco do dia 8 de março em Santa Catarina foi uma atividade de formação em Campos Novos, que reuniu cerca de 450 participantes, em sua maioria mulheres. Consistiu em formação sobre agroecologia e soberania alimentar, exatamente num estímulo a discussões sobre o tema já engendradas há algum tempo pelos movimentos.

Como último exemplo de como a discussão têm sido implementada na prática, sugerimos escutar depoimento da agricultora Lurdes, do município de Marema-SC, participante do MMC e premiada por suas iniciativas em agroecologia: http://cirandadapalavra.podomatic.com/entry/2011-03-18T11_55_51-07_00

 

14 de Março

 

O 14 de Março é o Dia de Luta Internacional contra as Barragens, que ganhou tal vulto por que em 1991 foi realizado o primeiro encontro nacional de atingidos por barragens, em Goiânia, no qual fundou-se o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Àquela época, grandes eram as lutas, devido aos imensos impactos sócio-ambientais conhecidos por obras anteriores e o histórico autoritarismo com o qual as populações ribeirinhas eram tratadas pelo setor elétrico estatal, que ignorava a necessidade de amplo diálogo e publicização de informações sobre todos os passos dos empreendimentos, principalmente hidrelétricos, a serem realizados.

Mesmo com as diretrizes do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) sobre a realização de Estudos de Impacto Ambiental (resolução01/1986), a abertura de departamentos sócio-ambientais em algumas empresas do setor, a pressão de movimentos sociais e de organismos internacionais para que a postura das empresas mudasse, muito ainda havia por fazer. Falava alto o legado dos anos 70 e 80, com a implementação de obras que alagaram regiões inteiras e expulsaram populações (Tucuruí e Balbina (http://tinyurl.com/67ykx55), na região Norte, Sobradinho e Itaparica no Nordeste, Salto Santiago, Passo Fundo, Itaipu bi-nacional e Salto Osório no Sul), sem as devidas medidas compensatórias.

 

A região Sul do Brasil, local onde em 1979 nasceram as lutas mais organizadas contra os barramentos em torno da Crab (Comissão Regional de Atingidos por Barragens), com sede em Erechim-RS, mobilizava-se contra à implantação de hidrelétricas previstas no que ficou conhecido como projeto Uruguai. Entre os casos mais polêmicos estavam as Usinas Hidrelétricas de Energia (UHEs) de Machadinho e Itá, embora houvesse um total de 19 empreendimentos previstos e 22 barramentos (três eram para regularização do fluxo das águas).

O projeto Uruguai foi uma iniciativa da Eletrobrás, ainda nos anos 60, de estudo sistemático do potencial hidrelétrico de toda a bacia do rio Uruguai para posterior utilização dos 90% identificados como possíveis. Este estudo foi elaborado por uma Comissão Canadense-Americano-Brasileira (Canambra), a partir de critérios baseados apenas nas técnicas da engenharia e em indicadores econômicos de eficiência energética. Teve como objetivo a geração de 9500MW, num momento de verificação da insuficiência da matriz termoelétrica até então vigente no sul do Brasil – sabia-se que o carvão da região era de baixa qualidade e em quantidade incapaz de suprir a crescente demanda. Ao mesmo tempo, sabia-se que aproximadamente 36mil pessoas seriam diretamente afetadas, em 177 municípios, numa extensão de 1500 km² alagados.

O MAB (www.mabnacional.org.br) pauta uma discussão polêmica, que é a mudança de modelo energético, organizado para produzir energia enquanto mercadoria muito mais barata para indústrias de minério (a multinacional ALCOA, a Vale do Rio Doce, por exemplo) e construção civil (Votorantim, Odebrecht, Camargo Corrêa, Quieroz Galvão) do que para consumidores comuns da cidade. A diferença é brutal: enquanto tais empresas têm o custo da tarifa do kW reduzido (0,06 centavo), o consumidor paga quase 10 vezes mais (0,50 centavo o kW). É por isso que uma das campanhas com maior repercussão do MAB foi exatamente “O preço da luz é um roubo”, cujo objetivo era publicizar a lógica perversa e mercantil do modelo energético e, ao mesmo tempo, exigir que casas com consumos baixo de energia fossem liberadas de pagar qualquer conta – seria uma espécie de tarifa social. Em Florianópolis ela ocorreu no ano de 2007, quando o MAB, junto com movimentos urbanos, percorreu casa por casa algumas comunidades de baixa renda, como o complexo Monte Cristo, a fim de dialogar com a população acerca dos temas da campanha.

No entanto, após o período neoliberal mais ferrenho pelo qual passou o país, à época de FHC, o setor elétrico reorganizou-se, devido exatamente à privatização de diversas empresas estaduais e ao esvaziamento das empresas constituintes da holding Eletreobrás – falamos aqui especialmente da Eletronorte e da Eletrosul, tendo esta última inclusive vendido sua estrutura de geração (responsável por 7% da capacidade nacional e 50% da regional, à época do leilão, em 1998) para a belga Tractebel Suez. Permaneceu apenas com as linhas de transmissão. Além disso, instaurou-se como agência reguladora (a função estatal da regulação foi, ao menos no plano normativo, hipertrofiada pela agenda neoliberal) a ANEEL. As empresas beneficiadas pelo baixo preço da energia, associadas a bancos como o Bradesco, passaram não só a comprar barato, mas também a compor os consórcios responsáveis pela construção das novas hidrelétricas. Todo o ciclo estava agora nas mãos dos capital privado, observado pela agência reguladora, financiado com empréstimos a juros baixos por parte do BNDES e estimulados pelo Ministério de Minas e Energia por estarem dinamizando um setor estratégico da economia  (geo)política nacional.

Com a privatização, as formas de negociação ficam mais dificultadas . Com a  Eletrosul alguns formatos de discussão já estavam se consolidando, principalmente no que dizia respeito à qualidade de medidas compensatórias -  reassentamentos coletivos e assistência técnica contínua estavam entre as mais importantes para os atingidos. Com empresas privadas a coisa é mais difícil, como mostraram ao mundo ambientalistas e camponeses atingidos pela construção da UHE Barra Grande, componente do projeto Uruguai (mais informações sobre o inacreditavelmente tortuoso processo de Barra Grande em http://www.apremavi.org.br/mobilizacao/barra-grande/) Os conflitos agudizam-se, a contradição se acirra. Mesmo assim, a questão de direitos violados pela construção de barragens ganha visibilidade mundial, engendrando a Comissão Mundial sobre Barragens, com representantes de atingidos, de agências financiadoras, de empresas e governos (leia relatório em http://www.dams.org/).

Agora, como a própria progamação de lutas do 14março2011 deixa explícito, os olhos voltam-se para o Norte do Brasil e a implantação de um complexo de hidrelétricas no rio Madeira: Belo Monte, Xingu, Jirau, Santo Antônio. O MAB organizou algumas iniciativas interessantes (ver com detalhe em http://www.mabnacional.org.br/noticias/140311_14marco.html,) como pescarias coletivas em Altamira (PA), com posterior partilha de peixes; o encontro de atingidos em Rondônia, devido às hidrelétricas de Santo Antônio, Jirau e Samuel. Além disso, tem-se empenhado na efetivação da lei que obriga o cadastro sócio-econômico de atingidos em futuros empreendimentos, o que retira um pouco da arbitrariedade dos laudos contratados pelos consórcios barrageiros (http://www.mabnacional.org.br/noticias/160311_cadastro_atingidos.html); por fim, constrói o I Encontro de Mulheres Atingidas, que acontecerá em abril (outro mês importante para a luta camponesa, devido à fundamental lembrança do massacre de Eldorado dos Carajás), em Brasília – no lastro do que ocorreu ano passado, na mesma capital, que recebeu o primeiro encontro da juventude atingida.

 

Instruções para dormir setembro 24, 2010

Filed under: Uncategorized — cirandadapalavra @ 6:02 am

Evitar qualificar o sono em horas. Uma noite, uma manhã ou uma cesta bem dormida pouco tem a ver com o espaço de tempo em que são realizadas. Antes, deve-se optar se se dormirá por preguiça ou por cansaço. O desafio da preguiça é manter a temperatura do corpo suficientemente morna e constante, para, ao mais breve recostar, as pálpebras se encontrarem já posicionadas para o fechamento. Reclinar sempre que possível. É mister resistir às tarefas domésticas e aos prazos. Postergar preocupações e afazeres mostraram-se práticas eficientes. A preguiça é um sono sem querer dormir, é pseudo-vigília, empreitada pelo relaxamento profundo. Dormir por cansaço é recompensa. É prêmio. Para tal, deve-se investir o corpo em situações objetivas e concretas. Gozar de técnicas que ampliem os movimentos – os de maior repetitividade alcançam melhores resultados. Engajamento em atividades de alguma duração são também de grande valia. Mas na maior parte das vezes uma solução de sol e maresia tem mesmo efeito.

brincando de cortazar…

 

manifestações à deriva junho 8, 2010

Filed under: idéias de ciranda — cirandadapalavra @ 5:36 am

O centro da cidade varia. Cedinho de uns poucos vão chegando para trabalhar. O barulho é o do levantar portões. Embaixo de marquises alguns moradores despertam, dobram seus cobertores, reúnem seus pertencem e somem na multidão que toma conta do calçadão. O centro é tomado. É tão barulhento que se esquece seu som. É o fluxo do dia. Milhares passam. Quem dera houvesse olhar para tanta gente e não câmeras. Mas o dia passa na disputa de um espaço na calçada, um assento no ônibus, um lugar na fila, quem sabe não passar despercebido.

À noitinha as coisas fecham, as ruas esvaziam-se, tornam-se alaranjadas sob a luz de mercúrio. Acho tudo muito bonito e silencioso. Redescobre-se as fachadas, as distintas lajotas, as pichações. Acho tudo muito bonito e soturno. À noite só vagam os ninguéns. “Há risco”. Já não há tabernas de resistência e as poucas travessas fecham cedo. São poucos que não se consomem até então.

Aos finais de semana as coisas mudam um pouco. Dizem que sábado de manhã o movimento se mistura em muvuca no mercado público, mas entre muitos laialaias já não sei o que pensar de tudo isso. Final de tarde e as ruas estão vazias outra vez. Embora à luz do dia, tão incertas quanto a noite. A sensação de quem passa é de não pertencer, de não se apropriar. Essa rua não é minha nem quando estamos a sós, nem quando estamos nós tantos.

Mas o centro da cidade varia. Há momentos em que aglomeração não é multidão, e as ruas não são passagens. Preenchem-se de desejos e motivos. E aí elas são nossas. Contra um aumento da passagem, contra um presidente ditador, contra um plano diretor verticalizado e ganancioso, em solidariedade aos palestinos, aos movimentos sociais campesinos, quando as meninas (e os meninos) retomam, quando no carnaval o encontro de batuqueiros ecoa num centro vazio.

Essas manifestações brotam aqui e ali de vez em quando. Às vezes com objetivos muito claros, às vezes só vontades muito fortes. Encontram-se lá sem certezas, não se sabe o que pode acontecer. Planejamentos e convicções até ajudam na baliza, mas o rumo é incerto.

Algumas delas deixaram marcas numa espécie de memória da cidade. Numa espécie de memória porque as ruas nos parecem intactas diante seu desgaste natural – algumas partes do centro ainda são vazio enquanto a manifestação passa – tipo de coisa que um google earth não pode captar. Nos perguntamos: como é possível rememorar se cremos que é preciso? Se não são poucos que lembram (falam em gerações).

Pensamos então uma deriva, a sugestão é criar o novo (uma nova situação) a partir do passado – seria uma espécie de deriva situacionista com inspirações benjaminianas. Retomar, re-significar e relembrar do centro como ele se deu nesses tempos (lembrar é pensar, e pensar é resistir). Não deixar que se percam no fluxo intenso da sociedade produtora de mercadorias. O desafio que se coloca então é: como fazê-lo?

Listo aqui algumas propostas:

  1. A elaboração de um mapa psicogeográfico das revotlas: “A psicogeografia seria uma geografia afetiva, subjetiva, que busca cartografar as diferentes ambiências psíquicas provocadas basicamente pelas deambulações urbanas (…).”
  2. A re-significação do espaço: batismo de ruas e “monumentos”.
  3. Uma exposição fotográfica: fotos de espaços vazios e dos espaços preenchidos pelas manifestações.
  4. Obviamente o nosso maior projeto: o filme. Essa experiência marca não só a cidade, mas o movimento passe livre.

Propostas para execução:

  1. Pensei num google maps com colagem de fotos dos pontos que elencamos para a deriva; outra opção seria desenhar um mapa (mas talvez nos faltasse a capacidade técnica), mas ambos seriam um material que poderíamos usar na divulgação, num cartaz por exemplo; outra idéia seria fazer uma mapa interativo (tipo um menu de cd/dvd sobre a figura do mapa) ao clicar sobre um ponto se abriria uma pasta com informações sobre ele (o que é um trampo, eu sei, talvez esse fique para uma próxima).
  2. Sobre a exposição pensei que poderíamos escolher algumas fotos das revoltas e tentar fotografar os mesmos espaços, mais ou menos da mesma perspectiva, hoje num domingo vazio. Acho que daria um contraste interessante.Seria legal sairmos um domingo antes da atividade para nós mesmos mesmos fazermos o percurso uma vez com a câmera, para treinarmos. Aí poderíamos fotografar.
 

Necessidades maio 31, 2010

Filed under: Uncategorized — cirandadapalavra @ 7:27 pm

E afinal o que é necessário?

 

Samba, Sargento, Thompson e Kolakowski maio 5, 2010

Filed under: Divagações — cirandadapalavra @ 12:36 am

            Nelson Sargento vem a Floripa, nos próximos dias 7 e 8 de maio. O sambista mangueirense dispensa apresentações. O conheci de um jeito prosaico, através do filme “O Primeiro Dia”, de Walter Salles e Daniela Thomas. Faz uma aparição rápida, como um preso veterano, entoando seu clássico “Agoniza, mas não morre”, única canção que conheço que consegue incluir o vocábulo “fidalguia”. E, vale dizer, encaixa perfeitamente – até por que as considerações de Sargento acerca da aproximação do maldito samba aos altos círculos acertam em cheio ao ressaltar tensões e assimilações. Preocupações dignas de nota e conclusões refinadas: convido todos a ouvir.

Sargento gravou também um disco em homenagem a Cartola com o igualmente imenso Elton Medeiros e os nobres membros do conjunto Galo Preto. Dele, por fim, encontrei anônimo e pirata um cd, intitulado “As Flores em Vida”. Sua voz é sofrida e antiga como a do Nelson Cavaquinho. Mas o paralelo importante aqui é com o portelense Argemiro do Patrocínio, que estreou fonograficamente um pouco antes de morrer. Foi no início desta década, pelas mãos da Marisa Monte.

A voz do Argemiro estava destruída e incrivelmente tímida à época. Fomos assisti-lo numa apresentação no espaço Novo Horizonte, ali na Vila Santa Rosa. Vinha com o seu Jair do Cavaquinho, outro portelense de história longa, participante do Conjunto Rosas de Ouro que acompanhou Clementina e juntou o Elton, o Paulinho da Viola, o próprio Nelson Sargento, o Anescar. O Bom Partido tocou antes, a noite foi muito boa. Foi a primeira vez que eu ouvi o Argemiro cantar “A chuva cai”, clássico absoluto. Fomos aos bastidores, um amigo entrevistou o Argemiro, que aos quase oitenta anos ainda bebia e fumava. Seu Jair, por outro lado, cansou-se e foi dormir no carro. Tudo muito interessante.

Por onde andará esta fita, resultado da gravação? No momento não me importei muito, mal conhecia eles. Hoje, ambos falecidos, os vejo como pilares. Devia entender mais deles, freqüentar as canções com mais freqüência, com mais religiosidade, talvez. Assim como o Mauro Duarte, o Paulo Sérgio Pinheiro, o Zé Kéti, etc. Acho que sou muito relapso. Isto mne faz lembrar de um amigo, também relapso, que me iniciou no mundo do samba. Por onde andará? Ele estava naquele dia, foi embora. Mas o gosto do samba ficou.

Hoje, na disciplina de “Política e Cultura”, conversamos novamente sobre E.P.Thompson. Na verdade estamso problematizando, através de alguns de seus textos de intervenção, o que é ser intelectual. Enquanto, durante os anos 70, Thompson apoiou-se em figuras como Leszek Lolakowski, Louis Althusser e Willkiam Morris para tecer um sutil e às vezes confuso arcabouço político-teórico acerca do materialismo histórico e do socialismo humanista – entre dezenas de outras ramificações que ele confecciona. O professor da disciplina, por sua vez, apóia-se em Thompson para pensar o papel do intelectual. Tudo muito interessante.

Em extensa polêmica com Kolakowski, Thompson enfatiza muito a noção de idioma, no sentido não apenas de língua, mas de conceitos e outras expressões de sentido que ele mobiliza a partir de sua singular experiência enquanto britânico. Ao enfatizar a obsessão pelo empirismo, pela contextualização e por um certo isolamento – usa a esquisita imagem de uma ave típica da ilha britânica, em extinção, denominada abetarda-comum – o britânico transforma um determinado ethos em logos, e isto tem conseqüências.

Perguntei-me, e ainda pergunto, qual seria um possível idioma ao qual me filiar. A questão é complexa: agrada-me reduzi-la e simplificá-la aqui. Retornemos ao samba: ali estão coisas preciosas. A recorrência de temas, a narração de histórias, a cadência, a maravilhosa síntese, as vozes rasgadas, pequenas, agudas, inadequadas: isto diz muito, é possível pensar muito daqui. A configuração da experiência popular urbana ainda não encontrou expressão melhor, na minha opinião. O samba, máquina de gêneros, mudou com o decorrer do tempo. Ótimo. Hoje, estou um pouco por fora.

Gosto, no entanto, de pensar no samba como algo quase trans-histórico: a partir de suas expressões mais intensas – e há autores demais para mencionar neste espaço: merecem um texto mais alentado e em detalhe – podemos traçar um lugar a partir do qual falar. E melhor: um lugar do qual se pode interrogar o mundo, dialogar com ele. A partir destas categorias. Este pequeno procedimento metodológico, é bom lembrar, é citado rapidamente por Engels numa carta de 1845, quando se refere ao conceito de democracia que ele e Marx propõem: negativo, normativo e sintético, baseado nas melhores características de diversos conceitos de democracias já propostos: Atenas, Esparta, França e EUA. É evidente que o conceito deles não se encaixava na realidade empírica da época; era exatamente isto, em sua opinião, era o que lhe conferia mais potência heurística.

Há tempos, acredito, desconfio dos idiomas que vêm me oferecendo: a academia não é um supermercado de modas voláteis, como Thompson caracateriza na “Carta Aberta a Kolakowski”, mas uma escola de línguas com mensalidades baixas e muitos funcionários. Uma impressão mais intestinal do que racional me fazia desconfiar. Ainda desconfio. Mas agora me parece que tenho um lugar mais claro no qual me apoiar.

 

Por que E.P. Thompson nunca chegará aos pés de Adoniran Barbosa? abril 4, 2010

Filed under: Ciranda da palavra-escondida,Divagações — cirandadapalavra @ 5:32 pm

Boca da noite, lua alta. Está cheia, bochechuda. As crianças geralmente
têm astros assim nas faces, deixam que brilhem à vontade na maioria dos
momentos. As crianças depois crescem e este padrão não se mantém: o corpo
alonga-se, mais pronunciadamente o rosto, tomado então por uma série
crescente de pontas, esquinas ósseas; ou ainda arredondam-se e as luas que
brilhavam do lado de fora parecem ter sido deglutidas sem mastigação,
conferindo aquele aspecto inflável com o que os obesos em miniatura
desfilam por aí.

Houve tempo para reparar na lua. Tempo também para vagabundear as palavras
do parágrafo. Antes de começar, correr os olhos pelo monitor e escolher
uma seleção de músicas. Imperativo ético, categórico: Adoniran Barbosa. Se
pretendesse continuar nas pernósticas citações de Kant, a quem
confessadamente li pouco, bem abaixo do necessário e merecido (mas não é
assim que a coisa deve funcionar?), dá pra pensar no Adoniran como uma
mediação perfeita entre o mundo sensível e as categorias a priori,
universais, que orientam o pensamento humano. Ele é absolutamente
necessário para a compreensão do mundo, no seu âmago. Não apenas pelos
temas e pela linguagem – esta particular, aqueles humaníssimos – em
associação mais que perfeita, mas antes de tudo pela pretensão da obra.
Tudo no Adoniran é simples, de um jeito quase impossível.

Acrobata, narra verdadeiras sagas em versos. O “Samba Italiano”, em
dialeto próprio, próximo do italiano, fala de uma ida desastrada à praia
do Guarujá; “Vide o Verso meu endereço”, samba-carta em agradecimento a um
amigo que, apesar de mencionado apenas como alguém que emprestou uma grana
num momento difícil, a fundo perdido mesmo, parece mais esconder do que
mostrar um passado talvez duro demais; ou o “Samba do Metrô”, na qual um
relacionamento apoiado em pequenas mentirinhas se acaba quando o homem,
que antes gabava-se para a pretendente acerca do seu respeitável status,
sente a casa cair quando ela o vislumbra pela janela do metrô, trabalhando
numa obra em São Paulo.

(São Paulo, a grande musa).

Todas estas fazem parte do disco de 1975, sucessor da bolacha lançada no
ano interior, onde constam belezas tais como “Abrigo de Vagabundos”, “As
Mariposas” e a mais sucinta descrição de uma tragédia na música
brasileira, “Iracema” – da qual se sai sem saber se choramos ou imaginamos
o olhar do narrador no momento imediatamente posterior ao atropelamento de
sua amada.

Gostaria de situar melhor a vida do Adoniran, de entender esta última
década de sua vida (morreu em 82). Restrinjo-me a registrar que esta
década contou com os lançamentos do Cartola, também depois de longa fase
de ostracismo. Outros – Nelson cavaquinho, Zé Kéti, Clementina, Geraldo
Filme, novatos como Wilson Moreira e Nei Lopes, o próprio Fundo de
Quintal, os discos antológicos da Beth Carvalho no fim desta década, ou de
Blanc & Bosco a partir do começo, João Nogueira surgindo, faceiro – nos
dão motivo para sorrir até hoje.

Antes, no entanto, havia mais tempo para me embrenhar em detalhes destas
músicas. Vários exercícios eu fiz, como o de imaginar o menino assassinado
em “Tiro de Misericórdia” (Blanc & Bosco), ou a pulsão de morte em “Vou
Festejar”, ou ainda as visitas do Noel à casa de Cartola no morro da
Mangueira.  Pensava nisso e tinha vontade de abrir uma garrafa de vinho,
sentado no meio-fio, à noite, num lugar quem sabe público, apenas para ver
o povo passar na rua e continuar imaginando histórias. Sempre pensei que,
com o tempo e esforço adequados, estas histórias brotariam naturalmente,
eu as transporia para o papel e a coisa estava resolvida: alguém pagaria
uns trocos e o ofício que eu sempre me imaginei exercendo
materializar-se-ia (uma mesóclise aqui!).

A coisa anda por outro lado. Já fui poeta e cronista. Já cantei e compus –
hoje administro. Não devaneio muito nem quando consigo um lugar pra sentar
no ônibus. Deixo que ele balance monótono – afinal, há muito já não me
acompanha um bando de argonautas.

Navegar não é preciso.

Hoje, numa destas aulas, tivemos a contextualização das intervenções e debates públicos do historiador britânico E.P. Thompson,dos anos 50 a 70. Thompson era bom polemista e sabia que a academia não era muito a solução para produzir um conhecimento pancada mesmo. Fez quase
todas as suas pesquisas por fora, com bolsas e contratos que não
implicavam em muitos compromissos burocráticos. Rompeu com o PC britânico, foi sacaneado por Perry Anderson no começo da “New Left Review”, deu uma sova no estruturalismo de Louis Althusser, largou tudo para integrar a militância pacifista nos anos 70 e 80. Era um cara legal, além de propor revisões interessantes para o materialismo histórico, colocando algumas questões em seu devido lugar (papel da cultura na determinação da
consciência, caráter histórico das categorias do método, estabelecimento
da classe a partir de uma relação histórica).

Há uma certa curiosidade para entender o que os caras faziam quando
produziam conhecimento científico. Com quem dialogavam, quais os centros
de pesquisa que freqüentavam, que revistas ajudavam a existir. As
pancadarias teóricas… Mas é uma curiosidade bem diferente. Não há
qualquer fascinação, não se pode observar o estabelecimento de uma
verdadeira constelação – como no samba dos anos 70. O Thompson parecia um
cara bem legal, mas fica evidente que não tinha qualquer molejo ou
malandragem. Tampouco intelectuais brasileiros o têm – trabalham durante
os fins de semana como escravos, preenchem fichas com pontinhos, não jogam
nem vídeo game com os filhos.

Adoniran, segundo Paulo Vanzolini, nem gostava tanto da boemia. Queria
mais era brincar de trenzinho com o neto. Tem que saber viver, né?

 

Colagem maio68 abril 2, 2010

Filed under: Uncategorized — cirandadapalavra @ 10:44 pm

CoLageM maio68

Comecei uma coleção de frases do maio 68. Concentro-me e tento purificá-las de todo caráter de slogan, de toda inconseqüência e evasividade que ganharam ditas por tantas bocas ordinárias. Assim mergulho na busca das razões libertárias de um hedonismo perdido nas ondas, nos sinais, nas redes. Não consuma Marx. Viva-o”. Sim, há de se começar outra vez. Os sindicalistas já não trabalham, de um modo perverso chegou O trabalhador ao poder, parece não haver um bom conselho que nos salve. Cheia de sanguessugas preguiçosos a academia há muito está podre. E aquele papo de estudar para trabalhar com o que gosta cai por terra outra vez, mas aumentamos vagas e cursos para quem ainda estiver disposto a se iludir. E eita que esse Brasil ainda é pra poucos. Mas de maneira geral seguimos enlatados, transporte coletivo, carro, “a nível de tédio” não muda muito por aqui. Rumamos a cumprir tarefas desumanizantes do cotidiano: roubar, matar, desperdiçar dinheiro público, ligar para vender cartões, carimbar, fingir que ensina, fingir que aprende… não mude de emprego, mude o emprego da sua vida.

Correr pra onde jogador se os olhos estão tão cansados pra ver? “A cultura estáse desintegrando,

Crie!”“Criatividade, espontaneidade, vida”. Cheios de imperativos ingênuos esses estudantes me cativam e quase me fazem esquecer da farsa que se tornaram. Parece tão simples dito assim. “Sejamos realistas, que se peça o impossível”. Às vezes secretamente desejo que de fato fora, pergunto-me como?

Será deveríamos ser mais cínicos e sarcásticos? Desacreditar mesmo isto que está aí? Sem apatia? Abrir espaço para começar de novo? “O que queremos de fato é que as idéias voltem a ser perigosas”. Ou será que ironizar é só mais uma forma de seguir o fluxo?

Tem que ter prazer e muito desejo, não fé na revolução. “Viver sem horas mortas, gozar sem entraves” - stress e reclamação, saco cheio, castram nosso ímpeto de transformação, pois se realizam neles mesmos. “Não reclamaremos nada. Não pediremos nada. Tomaremos.

Ocuparemos”.

versão colorida aqui.

 

março 19, 2009

Filed under: Divulgação/Programação — cirandadapalavra @ 4:30 am
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cartaz da ciranda de março d e2009

cartaz da ciranda de março d e2009

 

Mulher, Corpo e Gênero janeiro 29, 2009

Filed under: Ciranda da palavra-escrita — cirandadapalavra @ 3:31 am
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As borboletas do post abaixo são de autoria da artista plástica mexicana Erika Haarsch (www.erikaharrsch.com). Fazem parte de seu trabalho chamado Object of Desire ( Objeto de Desejo), que esteve em exposição aqui no Brasil em 2007, na galeria Leme, em São Paulo. Olhando mais de perto (/www.kunsthaus.org.mx/erika/erica_intro.htm) pode-se observar que através de uma belíssima sobreposição de imagens Erika camuflou no corpo das borboletas os pequenos lábios e clitóris de mulheres do mundo. E a proposta deixou, enfim, estas mulheres confortáveis para mostrarem e admirarem seus clitóris. Erika Haarsh conta que entre as fotografas, uma lhe agradeceu emocionada por poder ver belo o seu clitóris mutilado.

São lindas imagens, e colocam nosso corpo sob outra perspectiva. Mais bela. Pois estejam nossas vulvas escondidas entre as pernas fechadas, preferencialmente cruzadas como logo nos educam, ou estejam elas abertamente expostas em qualquer banca de revista, lembramos que nem mesmo este último recôncavo do nosso corpo está a salvo deste controle invasivo (e praticado por nós mesmas) da sociedade atual. Do sabonete íntimo à cirurgia de reconstituição do hímen, elas também estão submetidas – e o mercado cresce.

Escolhi estas borboletas para o cartaz de divulgação da “Ciranda” realizada em novembro de 2009, pois o tema era “Mulher,Corpo e Gênero”. O evento contou com a participação da ginecologista Doutora Inês a exposição de fotos “Vulva Revolução”, de Flora Lorena.

Esta Ciranda foi pequenininha, mas não menos especial. Estávamos lá cinco mulheres e cinco homens- entre eles um pré-adolescente de 12 anos. Mas éramos também pai, mãe, filhas e filhos, e casais de namorados sentados juntos para conversar sobre sexualidade. E no meio de tantas dúvidas, que persistem mesmo num mundo onde parece só se falar disso, nos damos conta de como não só nossa sexualidade como o nosso corpo está tão submetido a maneiras diversas de controle, impregnadas em nosso dia a dia. Quando não são nossos padrões de beleza e performance, simples fatos como não podermos ir ao banheiro quando temos vontade ou mesmo comermos sem pressa, para uma degustação deleitosa, constituem exemplos do que neste mundo não podemos fazer.

Essa ciranda deve ir mais longe, pois afinal também é preciso pensar e construir uma outra sexualidade. Então estendendo-a para o nosso espaço virtual, convidamos Beatriz Albino (já quase mestre pela Educação Física na UFSC) a escrever sobre sua investigação acerca de uma provável politização do corpo da mulheres e sobre o seu trabalho em que analisou dois periódicos destinados ao público feminino: a Página Feminina, suplemento dominical do Dia e Noite, jornal publicado entre 1936 e 1941 em Santa Catarina e a mais conhecida, por que contemporânea, Revista Boa Foma.

Alguns comentários poderiam ser feitos antes de adentrarmos ao texto propriamente dito. Surgem exatamente de sua leitura, e das possibilidades de articulação com outras produções intelectuais de relevância.

O texto tem como mérito trazer elementos para refletirmos sobre como, no cotidiano mais corriqueiro das publicações voltadas para o feminino, insere-se um projeto homogêneo e normativo acerca do que é “ser mulher”, podendo-se então formular uma análise crítica sobre ele e buscar alternativas concretas para elaboração de outras relações de gênero e sexualidade.

Poderíamos começar a comentá-lo com uma primeira contribuição, colocada a partir do campo da crítica à sociedade de informação, seria buscar a inserção do conceito de espetáculo na construção do projeto discursivo do “ser mulher”. Formulado por Guy Debord no caldo do movimento situacionista surgido a partir de 1958 na França – movimento que, por sua vez, teve bastante influência nas idéias dos estudantes de 68 e nas vanguardas artísticas a partir dos anos 60 – o conceito retoma, entre outras, a idéia de alienação do trabalho instituída por Marx, trazendo-a para a segunda metade do século XX, onde o que abunda são imagens. Enquanto, para Marx, o trabalhador estaria separado tanto do produto do seu trabalho quanto do processo de produção em si, sem perceber que é peça chave no contexto, a humanidade contemporânea, para Debord, estaria separada do mundo real pelas imagens que os próprios humanos produzem deste mundo. Elas teriam agora força de verdade e de realidade, e seriam as principais mediadoras das relações sociais contemporâneas.

Voltemos ao texto de Beatriz. Entre o suplemento d’”A Página”, de meados da década de 30, e a “Boa Forma” contemporânea, temos uma multiplicação brutal do espetáculo enquanto forma de relação social. O espetáculo enquanto conjunto de imagens produzidas pelo homem, mediadoras de seu contato com a realidade, parece cada vez mais onipresente e ter cada vez mais força de verdade. Aliás, segundo Maria Luiza Belloni (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782003000100011&lng=en&nrm=iso), “a ressignificação do conceito marxista de alienação é central para a compreensão do que é espetáculo para Debord e os situacionistas, que destacam a evolução histórica deste fenômno, que vai do ‘ser’ pré-moderno ao ‘ter’ capitalista, típico da modernidade, para chegar ao ‘parecer’ do espetáculo’”. Poder-se-ia concluir então que, ao seguir à risca as dietas com calorias contadas, o uso metódico de produtos de embelezamento e a prática precisa de técnicas de sedução e sexualização indicadas no receituário minucioso de Boa Forma, o que se alcança seria, antes de tudo, uma fórmula legitimada do “parecer mulher” no mundo contemporâneo?

Esta seria uma primeira, e ainda muito crua, indagação.

Outro ponto presente no texto é a noção de controle através da construção de uma noção detalhada e cientificamente legitimada do que é ser mulher. Resgatando a abordagem de Michel Foucault, a autora marca uma característica muito importante das relações contemporâneas de poder, no que o intelectual francês caracterizou enquanto “técnicas polimorfas”. Polimorfas por que o poder não é só aquele que diz “não”, marcado por uma perspectiva repressiva de interdição, silêncio, proibição. Embora isto exista, seria por demais unilateral distingui-lo apenas por isto.

O poder que funciona é aquele que articula o absoluto “não” com uma imediata possibilidade de um “mas… quem sabe?”. Ou seja, por mais que seja consenso que nossa sociedade escancara e mercantiliza o sexo o tempo inteiro, continua-se dizendo que muito disto “é feio”, “uma vergonha”. Foucault então apresenta a outra cara destes mecanismos de controle, que assinalam teoricamente o que qualquer um de nós vive na prática, ao andar na rua, assistir Tv ou folhear as revistas, dando de cara com propagandas de cerveja ou carro, clipes de rap estadunidense ou de cosméticos em geral : “seja assim”, “haja de tal maneira que todos os homens\mulheres cairão aos seus pés”, etc. Ou seja, não é apenas reprimindo, mas incitando à ação. Mas não à ação capaz de dar início a algo novo, mas sim uma ação específica, repleta de prescrições já estabelecidas, que os sujeitos desempenham com saciedade.

Por último, vale lembrar que geralmente lemos revistas voltadas para públicos específicos (nos caso, mulheres – com suas “Donna DC”, “Ana Maria”, “Cláudia”, “Nova”, “Boa Forma” – e homens – “VIP”, “Playboy”, “Sexy”, etc. ) em momentos de tempo livre, ou seja, quando não estamos envolvidos com o mundo do trabalho assalariado. O espaço voltado para o lazer e a diversão, embora pareça muito separado do trabalho, é, pelo contrário, umbilicalmente ligado a ele, por representar no imaginário o tempo em que há alívio – para que o próximo dia de labuta seja tragável.

Além disso, é espaço de reprodução do capital e de obtenção de lucro cada vez mais relevante, pois é o momento em que todos podem se dedicar a consumir os cada vez mais variados artigos disponíveis. Neste momento também se faz mais efetiva a indústria da consciência materializada na publicidade, filmes, programas de TV, rádio, jornais, internet, etc. A influência que estes exercem sobre a formação de valores é inquestionável. Neles, como texto de Beatriz ajuda a confirmar, estão muitos dos elementos para a construção dos papéis sexuais. O tempo livre é, então, um espaço-tempo de luta simbólica, de disputa acerca da construção de valores e modelos do humano.

Vale então recordar de um dos últimos textos de Adorno, cujo título é, exatamente, “Tempo Livre”, para pensarmos o que temos feito com ele: “A falta de fantasia, implantada e insistentemente recomendada pela sociedade, deixa as pessoas desamparadas em seu tempo livre. A pergunta descarada sobre o que o povo fará com todo o tempo livre de que hoje dispõe – como se esta fosse uma esmola e não um direito humano – baseia-se nisso. (…) sob as condições vigentes, seria inoportuno e insensato esperar ou exigir das pessoas que realizem algo produtivo em seu tempo livre, uma vez que se destruiu nelas justamente a produtividade, a capacidade criativa.”1 O espetáculo multiplicado, enfim, parece corroborar com a reflexão de Adorno há exatamente quatro décadas atrás. Em termos de relações de gênero, isto fica bem mais claro com a reflexão de Beatriz Albino.

Segue então o texto CORPO, GÊNERO E O FEMININO: QUESTÕES PARA PENSAR O TEMPO PRESENTE. As imagens que seguem junto o corpo do texto são intervenções realizadas pelo coletivo argentino Mujeres Públicas ( www.mujerespublicas.com.ar) intitulado Esta Belleza…

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CORPO, GÊNERO E O FEMININO: QUESTÕES PARA PENSAR O TEMPO PRESENTE

Corpo e Gênero

Assunto caro aos estudos feministas é sem dúvida o corpo e o modo como a experiência de “ser mulher” emerge como algo que é “encarnado” ao biológico. Assumindo, ou negando explicitamente essa perspectiva, ainda sim, como demonstrou Linda Nicholson (2002), muitos estudos desse campo têm reproduzido o regime de verdade que compreende o ser humano como detentor de uma “naturalidade”, de um a priori biológico sobre o qual o gênero é construído. No presente texto, compartilho todavia do entendimento do próprio corpo como uma produção cultural, e do interesse (ou invenção) que a modernidade inaugurou a respeito do dimorfismo sexual, como uma estratégia de interpretar e legitimar o biológico enquanto origem para as diferenças culturais. 2 Para tanto, utilizo aqui a descrição de gênero inaugurada por Joan Scott (1995), que o toma como significado da própria distinção sexual produzida em contextos discursivos diversos.

Nesse sentido é que explorar a maneira como o corpo feminino é produzido em diferentes tempos e lugares é uma maneira de desvendar o dever ser e a experiência do “ser mulher” que se desejou/deseja constituir. 3 Desvendar esses discursos, que retratam as expectativas sociais quanto à conduta e às formas corporais das mulheres, assim como as estratégias utilizadas no sentido de provocar uma identificação com o modelo de feminilidade produzido, é uma tarefa que se encontra por fazer, sobretudo porque as fontes são diversas. As entrelinhas dos anúncios publicitários e conselhos publicados nos manuais de beleza, por exemplo, podem ser objetos de análise interessantes, pois traduzem, especificam, promovem, a partir dos cuidados recomendados com o corpo, as representações desejadas para o feminino.

Corpo feminino “impresso” e as estratégias para o seu consumo

Na tentativa de compreender as pedagogias dos receituários de beleza, especificamenteb7g suas estratégias de persuasão e convencimento ao consumo de produtos e à adequação da mulher aos modelos de beleza e comportamento prescritos, investiguei dois receituários destinados ao público feminino. Um deles é a Página Feminina, 4 suplemento dominical do Dia e Noite, jornal publicado entre 1936 e 1941 em Santa Catarina. A análise compreendeu o período de outubro de 1940 a junho de 1941, focalizando a estação do verão, momento em que na cidade de Florianópolis já se apresentava uma preocupação com as formas aparentes e o uso de produtos e acessórios específicos para essa estação. O outro conjunto de fontes é composto pela contemporânea Boa Forma, revista de publicação mensal e em circulação de modo ininterrupto há cerca de vinte e três anos, uma das publicações com maior tiragem no Brasil. Analisei seus editorais, as chamadas de capa e reportagens específicas sobre saúde e embelezamento, das edições que compreendem as quatro últimas e as duas primeiras de cada ano a partir de setembro de 2001, completando-se em fevereiro de 2006.

A recorrência a estes dois conjuntos de fontes se deve aos indicativos de que esses receituários são importantes mecanismos de politização dos corpos; instrumentos que incitam a realização de um investimento maciço sobre o corpóreo, posicionando-o de modo estratégico/rentável aos interesses do mercado e mantendo a ordem social já estabelecida. Considerando o caráter de “guia” que esses manuais afirmam possuir, pretendo apontar para possíveis contornos de um projeto social do “ser mulher”, passível de ser apreendido pela análise de suas prescrições de embelezamento e de conduta, e do modo como elas se assemelham, transpassando tempos e espaços.

b1gNas próximas páginas apresentarei algumas das estratégias sutis e positivas 5 utilizadas por esses receituários na idealização do feminino.

1 Sobre o controle que estimula

A beleza é para o feminino um imperativo, não sendo o descuido com a corpo uma das possibilidades oferecidas pelos receituários de beleza analisados. Ao contrário disso, em ambos os conjuntos de fontes, a beleza é potencialmente acessível a todas, já que cada mulher é detentora, naturalmente, de algo belo em si, sendo preciso somente conhecer e salientar os pontos fortes da aparência. O alcance da beleza é conectado de tal maneira ao mérito de fazer-se ou não bela, que a ausência de cuidados consigo, ou ainda sua realização de modo que possa ser considerado limitado, insuficiente, é frequentemente relacionado ao desleixo, descaso e falta de amor por si mesma.

Tal atitude, pretenso resultado da falta de auto-estima da mulher, tem sido gradativamente categorizada como patologia, devendo ser investigada, pois considerada um indicativo de abatimento físico ou moral que precisa ser extirpado, seja pelas técnicas apresentadas pela revista Boa Forma, tais como “mentalizações de pensamentos positivos”, ou por tratamento médico (o que é mais raro de ser encontrado como prescrição). O apelo a esse tipo de recurso pedagógico que responsabiliza o indivíduo é comum na Boa Forma, algo talvez decorrente da multiplicidade de medidas de controle contemporâneas nesse sentido. 6 A revista ainda faz coro a esse discurso ao incitar a mulher a estar em sintonia com o seu tempo, ao saber fazer uso racional dos momentos dedicados ao trabalho e também ao entretenimento, caso contrário, como resultado de sua irresponsabilidade para consigo mesma, poderá desenvolver distúrbios psicológicos, como baixa auto-estima, que tende a desencadear algum malefício físico. O ponto mais radical e perverso desse discurso é a culpabilização da mulher pela somatização de doenças, e a falta de beleza conseqüente desse processo.

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Nas assertivas da Página, que ensinam a mulher a ser moderna, esse tipo de dispositivo de controle a partir da relação com o trabalho ainda não tinha tomado contornos tão sutis como no presente, mas, pelo modelo capitalista-industrial que se instaurava e que incitava a participação do feminino no mercado de trabalho, se identifica sua formação incipiente. Era por isso recomendado o uso racionalizado das atividades domésticas, o equilíbrio entre as responsabilidades do lar e do trabalho, a depreciação da “mulher preguiçosa”, o incitamento à prática regular de exercícios físicos. Para que fossem seguidas, essas prescrições eram largamente referidas como expressão de civilidade e, portanto, como ícones de prestígio social.

É fundamental aqui citar o papel ocupado pela ciência, não somente na constituição de um ideal de beleza – aspecto das teorias eugenistas do início do século passado –, mas sobretudo para a legitimação dos conhecimentos a serem seguidos no árduo processo de embelezamento. A formulação de uma crença no que é científico se apresenta nos escritos da Página pela referência aos especialistas e na descrição dos efeitos fisiológicos provenientes da prática de exercícios físico. Essas estratégias reforçam a autoridade da ciência que, repetidas na Boa Forma, ganham cada vez mais destaque ao serem acompanhadas de novas táticas de convencimento, como a alusão às medidas exatas e/ou tempo certo para o alcance do emagrecimento e da fortificação do corpo, o uso dos corpos esculturais de modelos e atrizes para legitimar o efeito dos programas de treinamentos cientificamente formulados, entre outros.

A ciência deve servir para lapidar o corpo de modo eficiente. As técnicas vendidas porvidrierag esses manuais incitam a manipulação do corpo até a obtenção de contornos estabelecidos como “perfeitos”. Vale fazer referência aos escritos de Horkheimer e Adorno (1985) sobre a perversidade que perpassa essa exaltação das “belas formas”. De acordo com eles, o fetiche pelo progresso atingiu a relação com o corpo, devendo esse ser a expressão encarnada do poderio humano, portanto belo, e por isso ícone de plenitude e de uma pretensa reconciliação com a natureza. 7 Esse modelo ideal de beleza porém, só pode ser alcançado por uma submissão do corpo, no sentido do controle extremo de suas “paixões”, afastando-o assim cada vez mais do que seria o corpo vivo (Leib), tanto mais que este é transformado em apenas um corpo anatômico (Körper), já que potencializar o corpo só é possível enquanto esse é objetivado, tratado como coisa que se pode manipular (HORKHEIMER; ADORNO, 1985).

Essa relação com o corpo é escamoteada, enquanto a promessa de reconciliação com a natureza não cessa de ser repetida, seja de modo indireto, ao se exaltar as belas formas, ou por meio de uma certa “pedagogia do natural”, identificada na revista Boa Forma. Nela se idealiza uma beleza que seria inata a cada mulher, e portanto natural, de nascença, e que deve ser preservada e potencializada. Ao mesmo tempo se estimula a busca por uma aparência que não denote artificialidade, e o uso de recursos embelezadores que sejam “naturais”, ou pouco “artificiais”. Nesse discurso, o corpo é considerado “puro”, não devendo ser manipulado, ou sendo tão menos quanto possível. Escamoteia-se assim que a própria discussão sobre o uso de técnicas “menos ou mais invasivas” (ou “artificiais”), apenas ratifica que, realmente, o corpo é objeto de manipulação, e que procedimentos “artificiais” e “naturais” igualam-se por objetivar o alcance de uma beleza padronizada (ALBINO; HAMMES; VAZ, 2008).

b4gEsse ideário, presente na revista Boa Forma, do corpo como “puro”, e de elogio de uma beleza (que deve ao menos parecer) “natural”, pode ser considerado uma atualização daquele presente na Página. Nele, a mulher é instigada a imitar e manter-se próxima dos elementos do meio ambiente natural, pois, como a natureza, seria afeita ao que é irracional e indeterminado, os sentimentos e as paixões. Da mesma maneira que o corpo, representante da natureza que compõe o ser humano, subentende-se que a mulher deve ter o mesmo destino, oposto à racionalidade, conhecida e então dominada (HORKHEIMER; ADORNO, 1985). Ao associar a beleza como oposto ao artifício, a Boa Forma, acaba por reforçar a associação da mulher com a natureza.

2 Para o exercício de uma autovigilância

Imprescindível instrumento de controle, notável nos dois conjuntos de fontes selecionados, são as prescrições de comportamento para os diversos âmbitos que constituem a vida pública e privada da mulher. Com as técnicas disponíveis no mercado – imagens plasticamente organizadas para incitar o consumo e se apresentarem como a realidade, ao invés de um discurso sobre ela, reportagens “informativas” sobre produtos e técnicas, frases de auto-ajuda, matérias que deixam a mulher concatenada com os acontecimentos da moda de todo o mundo – é tecido um discurso sobre o que deve ser normal/desejável para as relações a serem estabelecidas com o próprio corpo, com as tarefas domésticas/trabalho, marido/namorado/parceiro (pois os receituários têm como norma a heterossexualidade), filhos, amigos/as, e ainda as roupas adequadas para cada ocasião social. A mulher deve ser o encontro desse conjunto de prescrições.

Complementar a esse projeto normativo são as estratégias de interiorização da culpa, sempre associadas ao incitamento de uma autovigilância, ao serem disponibilizados por esses manuais os conhecimentos necessários para o domínio de si. A mulher é correntemente informada sobre os instrumentos para controlar seu corpo de modo adequado, sendo enfatizado na Página o uso diário da balança e o ajuste das roupas na cintura, enquanto na Boa Forma o alerta é para que se administre o consumo dos alimentos a partir do número de calorias estipulado como ideal – uma estratégia de controle muito mais minuciosa, eficiente e constante. Tal mecanismo que incita a autovigilância das formas corporais, ao disponibilizar “conhecimentos” e técnicas para tanto, também se aplica ao uso que se deve fazer dos cosméticos, uma vez que numerosa gama de produtos é difundida por esses manuais, pretensamente abarcando variadas condições econômicas. Desse modo, investe-se não na coerção, mas na indireta culpabilização da mulher que não faz uso dos recursos/conhecimentos disponíveis, culminando com a responsabilização individual por ser ou não bela – ou ainda moderna, como categoriza a Página.

Em tempos hodiernos, o controle por meio da culpabilização ganha contornos sempre mais sutis e até afirmativos, como, por exemplo, pelo ambíguo desencorajamento de uma cobrança excessiva sobre si mesma, 8 o qual ao mesmo tempo reforça as situações que deveriam provocar culpa na mulher. O uso desse mecanismo de controle das condutas era também recorrente na década de quarenta do século passado, mas não se dava porém de modo tão astucioso, sendo encontrado métodos de culpabilização muito mais explícitos e incisivos, geralmente em casos que as relações de gênero instituídas eram ameaças. Indicativo da presença de um receio quanto a alteração das representações do que é o ser mulher – e que evidencia a sua existência devido a preocupação em limitá-las – é a recorrência à associação de determinadas atitudes com o masculino, com a depreciada possibilidade de a mulher masculinizar-se. Denegados eram ainda os comportamentos próprios das mulheres modernas, classificadas como um “tipo” específico, materialista, que não se importava com o amor nem com os filhos, somente com a beleza e com a diversão que obtinha com a coqueteria. Ambigüidade com relação a expressão “moderna”, que em outros momentos é utilizada em sentido positivo, mas que nessas situações particulares, em que o comportamento adotado parecia ameaçar a ordem estabelecida entre os sexos, era duramente depreciada. Comum era encontrar pela Página o alerta que a mulher moderna, que segue de modo exagerado a moda – fuma, bebe, joga –, é objeto de diversão e chacota masculina, sendo que para noiva o homem sensato exige outro tipo: feminina, modesta, educada, bonita e inteligente. O inculcamento do medo de não ser alguém a que se anseie unir pelos laços do matrimônio era corrente, bem como os imperativos para que se fosse uma “esposa indispensável”, sendo culpa ou mérito seu se o marido tivesse uma amante. Vê-se assim, que no período estadonovista, ainda eram comuns os mecanismos de culpabilização e as prescrições de beleza e comportamento serem pautadas na necessidade de manter o casamento e de afirmação da feminilidade.

Em Boa Forma, no entanto, e apesar dos novos contornos, como a ênfase no aspecto da sedução em detrimento ao imperativo da união ou manutenção legal dos laços conjugais, ainda permanece a relação de dependência da mulher para com o sexo oposto. Se por um lado a mulher hoje pode exercer sua sexualidade de modo mais “livre” do que na metade do século vinte, todavia permanece subjugada ao poderio masculino, que determina as características do que é ou não belo – aproximando-se do ser sexy na contemporaneidade – e os investimentos a serem feitos no corpo, território primeiro da beleza.

A partir da análise da posição da mulher na sociedade patriarcal, Horkheimer e Adorno (1985) afirmaram que, apesar das exigências quanto ao comportamento feminino terem se alterado, a lógica da subordinação permanece muito semelhante. Para eles, o que seria o agraciamento da mulher como representante da beleza, é o mecanismo que concretizou a sua submissão espontânea ao mundo da dominação, pois o prestígio adquirido somente oculta a posição de objeto sexual a que as mulheres foram relegadas em uma sociedade regida pela força bruta. O feminino sempre representou a natureza e a licenciosidade, precisando por isso transformar esses vestígios em virtude e recato, símbolos da civilização patriarcal e concomitantemente de beleza. Hodiernamente, como explicam os filósofos alemães, “as mulheres prisioneiras do sistema continuam a provar pela promiscuidade a obediência à ordem existente que demonstravam antigamente pelo recato apenas; pelo ato sexual indiscriminado, continuam a provar a rígida subordinação à razão dominante.” (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p. 233).

Na Página é possível encontrar indicativos dessa transposição de um mecanismo de dominação para outro, estando presentes prescrições para a manutenção do pudor como distintivo de beleza, mas também de imperativos a exposição do corpo. Parece iniciar-se aí um processo de subsunção da moral à estética, talvez fruto da influência do cinema no país, veículo privilegiado dos desígnios da indústria cultural no período e de concretização de um ideário de “controle-estimulação”. 9 Nessa época, as restrições em expor o corpo dependiam largamente da beleza que se possuía ou não. O sentido da palavra “imoral” vai sendo deslocado para a apropriação errônea das recomendações de beleza, e da exposição de um corpo que não esteja em forma. Um imperativo que é atualizado e potencializado contemporaneamente, em que o corpo não apenas pode, mas deve ser mostrado, exibido, para que possa na mesma medida ser apreciado, desejado ou apenas tão somente notado – contanto que esteja adequado para isso.

Notas finais

As fontes permitem assinalar para um projeto social do “ser mulher”, instituído a partir da politização dos corpos e das condutas das mulheres de uma maneira que é positiva e alcança os mais diversos âmbitos de sua vida. Imprescindível mecanismo de controle é a simbólica do poder instituída em torno do corpo. Ser dotada de formas “perfeitas” significa, nos termos dos receituários analisados, materializar a felicidade em si; juntamente com todos os demais ícones de prestígio que lhe são impingidos.

É possível atentar aqui para alguns dos dispositivos que são complementares a esse ideário de poder. Refiro-me ao enaltecimento do ideário meritocrático, lapidado em meio ao ambíguo jogo que culpabiliza e responsabiliza a mulher; a relação de saber-poder configurada pelo fomento de uma crença desmedida na ciência, seus especialistas e produtos; e o caráter de obrigação ao embelezamento e de autovigilância imputado pelo “conhecimento” sobre os métodos de manipulação do corpo que são disponibilizados à leitora.

Por fim, ressalto as repetidas promessas de reconciliação com a natureza: a exaltação do corpo “perfeito”, a produção de um ideário do corpo como “puro”, o elogio de uma beleza “natural”, a depreciação de métodos ditos “artificiais”, a exaltação da liberdade de (dever) exibir o corpo – todos dispositivos que reforçam a condição milenar destinada ao feminino. Próxima da natureza, dos animais, do sentimentalismo e da irracionalidade, há que ser dominada, subjugada – ao ser mantida na condição de natureza –, ainda que, ou por isso mesmo, em associação com a beleza.

Referências

ALBINO, B. S.; HAMMES, P. D.; VAZ, A. F. Um interesse pelo corpo-natureza: embelezamento, artifício, romantismo. Lecturas. v. 12, n. 118, março 2008, p. 1-9.

CAVALHEIRO, T. Chega de culpa. Boa Forma, São Paulo, v. 17, n. 2, p. 85, fev. 2002.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Tradução Roberto Machado 15. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2000.

HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

LAQUEUR, T. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Tradução Vera Whately. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001. 313p.

NICHOLSON, L. Interpretando o gênero. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n.2, p. 9-41, jul/dez., 2000.

PALMA, A.; ESTEVÃO, A.; BAGRICHEVSKY, M. Considerações teóricas acerca das questões relacionadas à promoção da saúde. In:_____(Org.). A saúde em debate na educação física. Blumenau: Edibes, 2003. p. 15-31.

SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v.20, n.2, p. 71-99, jul/dez., 1995.

1Adorno, T.W. “Tempo Livre”, In: Indústria Cultural e Sociedade. Ed. Paz e Terra. São Paulo, SP. (1969/2006). p. 103-17. A citação é da página 111.)

2 Thomas Laqueur (2001), em sua análise sobre a compreensão do corpo dos gregos até o século XVIII, apresenta como a partir do século XVIII, sem haver uma mudança significativa no conhecimento médico, mas sim na estratégia interpretativa do corpo, ele passa a ser considerado como ponto causal das diferenças culturais.

3 É preciso explicitar que não se trata de dizer de que maneira essa idealização do feminino foi (ou é) assumida pelas mulheres. Desvendar a recepção a esse discurso necessitaria de um outro tipo de estudo. Importante é aqui perceber o “projeto de mulher” formulado pelo tempo presente e as estratégias de persuasão de que faz uso.

4 Doravante referida, neste trabalho, como Página. Ela foi publicada entre os anos de 1939 e 1941, sendo todas as suas edições fotografadas e sistematizadas. O material original faz parte do acervo da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina.

5 Refere-se a potencialização do corpo exercida pelo indivíduo a partir da produção do desejo sobre ele (FOUCAULT, 2000).

6 Sobre a “culpabilização da vítima” nos discursos de “promoção de um estilo de vida ativo”, consultar Palma et. al. (2003).

7 O desejo de reconciliação é, para os pensadores alemães, proveniente da forja da civilização, que precisou solapar a natureza externa, mas também interna – de si mesmo –, em troca da sobrevivência e da cultura. A utopia de reconciliação com essa natureza significaria a satisfação imediata das pulsões, da simples sobrevivência, sem memória, e por isso sem cobranças e culpas – algo que não é possível, mas constantemente prometido pelos veículos da indústria cultural.

8 A Boa Forma afirma que a mulher não deve se sentir culpada se “sabotar a dieta comendo chocolate fora de hora”, ficar sem malhar, “trabalhar demais e dar atenção de menos aos filhos, por ficar meses sem telefonar para os amigos mais queridos” (CAVALHEIRO, 2002, p. 85), entre outros deslizes.

9 Expressão utilizada por Foucault (2000), para explicitar uma nova configuração de domínio que não se dá pela repressão, mas por meio do estímulo de mostrar e fazer-se desejar, desencadeando o investimento positivo sobre o corpo.

 

 
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